A “VELHINHA” FILARMÓNICA

A Filarmónica foi fundada a 4 de Março de 1896, por casapianos. Rodrigues Cordeiro era professor, na Casa Pia. Quando os músicos decidiram formar a banda, não só a baptizaram com o nome do antigo mestre, como também o escolherem para regente.

O artigo do jornal Correio da Manhã, do dia 4/3/1996, fazia assim notícia com a inauguração da Sociedade Filarmónica João Rodrigues Cordeiro.

Fundada por Alfredo Reis de Carvalho, Joaquim Bacalhau, António Aguiar, António da Silva, Manuel Vieira, Joaquim Filipe, Joaquim Gaudêncio Alves, José Pereira Godinho, Manuel Pereira, Luís Ribeiro e Adriano.

A centenária Sociedade teve na sua génese o primeiro Mestre de Filarmónicas Portuguesas que ainda no séc. XIX dedicou grande parte da sua vida a ensinar diversos instrumentos nas sociedades filarmónicas do país. Estas sociedades protagonizavam uma onda de democratização da cultura musical, através de diversos eventos onde se podiam encontrar grupos com diferentes origens sociais. João Rodrigues Cordeiro dedicou parte do seu trabalho a esta Sociedade Filarmónica.

Fotos antigas refletem a exuberância que esta Sociedade alcançou no país e no estrangeiro, até ao eclodir da I Grande Guerra, altura que o grupo se desfez. Venderam os instrumentos para pagar a renda da casa onde se reuniam e ensaiavam. E, assim, sem música, a Filarmónica transformou-se numa Sociedade Recreativa.

FAMA DE “CASAMENTEIRA”

No auge do Estado Novo, muitas foram as pessoas que acorreram a inscrever-se, porque necessitavam de um lugar para conversar. A procura foi de tal forma que nos anos 40 e 50 chegou a ter meio milhar de associados.

Animação não faltava. Teatro de revista, bailes ao fim-de-semana, celebração dos Santos Populares, equipas campeãs de “ping-pong” e um campeão europeu de luta greco-romana.

Era aqui, na Rua da Fé 46 A, que rapazes e raparigas se conheciam, namoravam e casavam. António Calisto, tal como muitos outros sócios, “casou-se” na Filarmónica. O mesmo aconteceu com Fátima Duarte que aos 22 anos saiu da Sociedade para se casar. “Aos 18 anos vinha aos bailes. Aí conheci o meu marido, ele morava mesmo aqui em frente. Ele jogava ténis de mesa. Eu já tinha feito ginástica com o Professor Pierre Charles, peças de teatro. Isto era muito familiar”, afirma.

Uma alma e vida de bairro que a associação foi alimentando. Fosse pelo desporto, pelas salas de jogo, pelo pequeno bar ou mesmo pelos momentos em família.

“Eram tardes e fins de semana passados aqui. Fosse pelos bailes de Carnaval ou pelos jogos de futebol entre solteiros e casados, onde no final de cada jogo vínhamos para aqui almoçar”, lembra Conceição Bonifácio. Tal como Conceição também Manuela Santos via marido e filhos dedicados de corpo e alma à Sociedade. “Eu dizia de represália que não iria ser sócia porque a Sociedade “roubava-me” a família. Chegavam a estar os 3 aqui a trabalhar”. A filha de Manuela e Carlos Santos – Maria João Santos – foi a primeira mulher a fazer parte de um cargo da direção na Sociedade.

A “MÃE” DA SOCIEDADE

Maria América Nascimento durante 40 anos foi contínua da Sociedade Filarmónica. “A primeira coisa que eu fiz quando vim para aqui foi coser os equipamentos dos jogadores e os cortinados para o palco. Depois a partir daí tinha que lavar a roupa dos jogadores, lavar o chão. Esfreguei tantas vezes o chão do ginásio com os joelhos no chão”. Recorda emocionada ao falar desta que foi a sua casa onde construiu a sua própria família e ajudou a tomar conta de tantas outras. “Os meninos que eu aqui criei. Lembro-me de estar a fritar rissóis e eles aparecem todos para comer”.

Uma vida cheia de recordações também para a filha de Maria América, Paula Nascimento que usufruiu de todas as atividades da Sociedade (karaté, ténis de mesa, ballet) e só saiu do último andar da Rua da Fé 46A para se casar. “Estive cá mais de 20 anos no mesmo quarto que os meus pais. Eles deitados para um lado, eu deitada para o outro. Saí daqui com 25 anos para casar”.

DO FECHO À REABERTURA: UMA NOVA ALMA

A Sociedade Filarmónica João Rodrigues Cordeiro tem na sua história a marca de várias fases. De bailes, a verdadeiras enchentes, aos jogos de mesa, aos musicais e a última vez que esteve na ribalta foi à boleia do fecho da Juke Box, noites e mais tarde matinés de rock n’ roll que decorriam aos sábados à tarde. Até que fechou em 2010.

Há um ano uma nova direção (Nuno Santos – Presidente da Direção; Bruno Fonseca – Vice-Presidente; Amandina Silva – Tesoureira; Henrique Esteves – Secretário; Ana Filipa Silva – Secretária e João Anjos – Presidente da Mesa da Assembleia) assumiu as rédeas da associação. “Nós não somos uma direção somos sim um grupo de amigos que criou uma direção”, afirma Amandina Silva.

O pó começou a sair na noite de Santo António quando organizaram, pela primeira vez, os Santos Populares. E o momento de viragem aconteceu com a assinatura do protocolo com a Freguesia de Santo António. “Numa conversa com o Vasco (Presidente da Freguesia de Santo António) assinámos este protocolo que era o melhor, porque sozinhos não íamos conseguir fazer nada da Sociedade”, explica Henrique Esteves.

O protocolo com a Freguesia, que investiu 50 mil euros nas obras de requalificação, permitiu “devolver este espaço centenário às pessoas” e foi, segundo Vasco Morgado, “um casar de vontades”.

DIA ABERTO

E quando “o Homem sonha a obra nasce”, o dia 9 de março de 2019 foi prova disso mesmo. Após meses de obras de requalificação, foi possível fazer deste espaço com 123 anos de história, um polo de fixação da população com uma oferta diversificada de atividades pensadas para todas as idades.

Logo pela manhã o Dia Aberto foi pensado para toda a família tendo começado com demonstração de atividades desportivas / culturais (boxe, esgrima, ballet, dança, guitarra elétrica, bateria e viola), pinturas faciais, magia e jogos tradicionais.

A tarde trouxe consigo o silêncio para ouvir cantar o fado pelas vozes de Deolinda de Jesus, Marcelo Rebelo da Costa, Débora Rodrigues, acompanhadas por Bruno Sangareau e Hugo Silva.

A cerimónia oficial de reabertura, marcada para o final da tarde, permitiu recuperar a tão perdida “vida de bairro” entre a Colina de Santana e a Avenida da Liberdade. Destaque para a presença do Presidente da Associação das Coletividades do Concelho de Lisboa, Pedro Franco, o Presidente da Confederação Portuguesa das Coletividades de Cultura, Augusto Flor. Foram ainda entregues os diplomas de 50 anos de sócios da Sociedade.

A casa voltou a encher relembrando outros tempos da Sociedade Filarmónica João Rodrigues Cordeiro (SFJRC).

“Não subia esta escada há 24 anos e está muito diferente. Olhar para estas fotografias todas deixa saudades”, afirma emocionado João Dias que durante oito anos foi presidente na Sociedade Filarmónica.

Quem também marcou presença foi o fadista Camané que cantou nesta coletividade com 10 anos. “Faz-me lembrar muito a minha infância porque eram espaços como estes que eu vinha porque era onde havia música, fados. Os meus pais também frequentavam muito estes espaços”.

Um espaço que para quem não conhece tem na sala de entrada um bar com os clássicos matrecos e uma mesa de snooker. À direita uma sala de convívio com mesas dos anos 20 e recuperadas pela freguesia. Há ainda móveis cedidos pelo Hotel Corinthia e as cadeiras foram resgatadas do Maxime, antes de se transformar em hotel. No piso de baixo existem ainda balneários e uma sala multidisciplinar onde decorrem as atividades, o Ginásio Pierre Joseph Charles. Onde às segundas, quartas e quintas, às 20h15, decorrem aulas de boxe. No andar de cima a funcionar o projeto Bússola e a Escola de Rock, dedicados aos mais jovens.

A Sociedade Filarmónica João Rodrigues Cordeiro está de volta, está devolvida às pessoas. E esta é a Lisboa que eu gosto, é a freguesia que eu amo. É a Lisboa que é a velha amiga de todos”, Vasco Morgado (Presidente da Freguesia de Santo António de Lisboa)